6.11.07

Cores de Frida Kahlo, cores...


''Me parece que a coisa mais importante na Gringolândia é ter ambição e se tornar 'somebody'.
Francamente, não tenho a menor ambição de ser ninguém.''

Frida Kahlo


18.10.07

Sobre todas as coisas

Música de Edu Lobo e Chico Buarque em versão linda cantada por Maria Rita.

Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Ao Nosso Senhor
Pergunte se Ele produziu nas trevas o esplendor
Se tudo foi criado - o macho, a fêmea, o bicho, a flor
Criado pra adorar o Criador

E se o Criador
Inventou a criatura por favor
Se do barro fez alguém com tanto amor
Para amar Nosso Senhor

Não, Nosso Senhor
Não há de ter lançado em movimento terra e céu
Estrelas percorrendo o firmamento em carrossel
Pra circular em torno ao Criador

Ou será que o Deus
Que criou nosso desejo é tão cruel
Mostra os vales onde jorra o leite e o mel
E esses vales são de Deus
Pelo amor de Deus
Não vê que isso é pecado, desprezar quem lhe quer bem
Não vê que Deus até fica zangado vendo alguém
Abandonado pelo amor de Deus

Foto: menina iraquiana clicada em frente a sua casa, destruída por um bombardeio

16.10.07

Cicatrizes


Terminei de ler "Paula". Foi uma viagem intensa, que me ensinou muito sobre a história do Chile e me levou a pensar em questões importantes como amor, família, vida e morte.

A última epifania vinda desse livro está em um trecho no qual Isabel Allende fala sobre o amor:

"Tal vez estamos en el mundo para buscar el amor, encontrarlo y perderlo, una y otra vez. Con cada amor volvemos a nacer y con cada amor que termina se nos abre una herida. Estoy llena de orgullosas cicatrices".

Também estou cheia de cicatrizes. De algumas não me orgulho tanto. Talvez ainda não tenha chegado o tempo. Acho que enquanto as cicatrizes ainda dóem, tendo a sentir vergonha por ter me machucado. Como uma criança que caiu, ralou o joelho e esconde do pai por saber que vai levar bronca. Outras, já bem fechadas, eu mostro nas rodas de amigos, viraram causos que são motivos de risada. Algumas, mais profundas, ficam escondidas em lugares que só eu vejo. Mas que quando olho, me enchem de orgulho por serem parte do que sou, por terem me feito crescer. Sou grata por cada ferida que se abriu, porque me fizeram mais humana. Sim, o sofrimento me torna mais gente. Juliana, de carne e osso.



11.10.07

Ainda sobre "Paula"

Epifania do dia:

"Silencio antes de nacer, silencio después de la muerte, la vida es puro ruido entre dos insondables silencios".

1.10.07

Efeito Paraíso Tropical

Vontade de encontrá-lo de novo e deitar naquele peito que foi onde eu mais encontrei alento na minha vida.

Vontade de que as coisas fossem diferentes, que o pesadelo acabasse e que, como em fim de novela, as pessoas se redimissem, esquecessem de tudo de ruim que fizeram umas para as outras e vivessem felizes para sempre.



foto: Marcelo Gatica, Chile.

27.9.07

"Qué simple es la vida, al final de cuentas..."

Lendo "Paula", de Isabel Allende. Altamente recomendável.


Neste livro, escrito junto ao leito em que agonizava sua filha Paula, a autora chilena narra a história de sua família e de si mesma com o propósito de presentear a filha quando esta sair do coma. Lindo demais. Tem me feito pensar em como a vida é curta e surpreendente, e em quanto os laços que se formam ao longo dela são importantes. O mais importante.


O epílogo, que narra o dia da morte de Paula - um ano após adoecer -, me fez chorar.

Um trechinho:


"Qué simple es la vida, al final de cuentas... En este año de suplicios renuncié poco a poco a todo, primero me despedí de la inteligencia de Paula, después de su vitalidad y su compañía, finalmente debía separarme de su cuerpo. Todo lo había perdido y mi hija se iba, pero en verdad me quedaba lo esencial: el amor. En última instancia lo único que tengo es el amor que le doy".






Foto: Balneário Camboriú, em minha viagem solitária. Bons momentos para organizar os pensamentos e sentimentos.

25.9.07

Alphaville

Aqui a vida é mais bonita.
Ou mais maquiada.
Meticulosamente construída.
Fake, na língua local.

Alphaville.
Onde há mais canteiros centrais que ruas.
Pois o importante é que os motoristas de carros importados
vejam, de suas janelas, árvores floridas e bem cuidadas.
Mesmo que não haja faixa de pedestres

- afinal, quem aqui vive, não é pedestre.
Tem motorista.
E se é pedestre, é porque não vive aqui.
E se não vive aqui, é porque não pode pagar.
E se não pode pagar, não deveria nem estar aqui.

Aqui não há pobreza aparente.

Ela anda uniformizada.
Qualquer ponto fora da curva é cuidadosamente jogado para debaixo dela.
A perfeição precisa reinar.
Num mundo tão desordenado, as pessoas que aqui vivem precisam de ordem.
E de dar ordens.
Babás vestidas de branco passeiam com carrinhos de bebê.
Madames em seus trajes esportivos passeiam com cachorros.

E tantas flores
Tantas casas
Tantos banquinhos à beira do caminho
Tudo tão bonito...
Tudo feito pra combinar
Com o mau humor,
A sisudez
De quem vive por aqui

Alphaville
Revistas próprias com a cara de quem paga pra morar
Mais do que seus empregados ganham para trabalhar.
Carros blindados,
Condomínios fechados,
Colégios cercados.
O lugar mais seguro pra se viver.
O que não se ensina nas escolas daqui

É que viver não é seguro.

29.8.07

Ou isto ou aquilo

Dizem que a Cecília Meireles escreveu isso entre suas "poesias para criança"... mas que dilema de gente grande esse de escolher entre isto ou aquilo!

Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,

ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.

Mas não consegui entender ainda

qual é melhor: se é isto ou aquilo.

Cecília Meireles

3.6.07

Amor Líquido...


Meses depois, aqui estou novamente...

Durante esse tempo, vivi muitas coisas, refleti bastante e, aos poucos, sinto que estou encontrando meu caminho de volta para casa. Quem conhece a história do filho pródigo deve entender bem o significado disso.

Tenho pensado muito no que Zygmunt Bauman esreveu em seu "Amor Líquido". É tanta verdade que às vezes chega a ser cruel. Verdade sobre meus sentimentos, minha realidade, meu jeito de enxergar a vida. E aí me percebo totalmente envolvida por valores que não costumavam ser os meus. Me percebo vendo o mundo a partir de uma ótica nova, muito mais conformista, muito mais "líquida". Preceitos humanos, coisas que vêm de fora e evocam o que está no coração humano - caído, pecaminoso.

"(...) E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a experiência amorosa à semelhançca de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esfoço sem suor e resultados sem esforço". (cap. 1 - Apaixonar-se e desapaixonar-se)

Hoje na IMEL refletimos sobre a vida de Daniel. Jovem inteligente, culto, selecionado entre muitos para estudar na Babilônia, a melhor "universidade" da época. Daniel disse sim a essa possibilidade, aproveitou-a dando o seu melhor e se tornou "dez vezes mais sábio que os demais". Ainda assim, ele disse não aos valores dali. Apesar de terem mudado seu nome, Daniel sabia quem era e jamais se esqueceu daquilo que regia sua vida: o Deus de Israel. Estando longe de casa, ele mantinha os velhos hábitos aprendidos com seus pais para se lembrar de sua identidade. Daniel se manteve íntegro - e isso lhe rendeu perseguições e até mesmo uma cova cheia de leões. Uma amostra de como "sua presença faz toda diferença": Daniel sabia quem estava com ele e se lembrava de suas promessas. Isso o sustentou durante toda a sua vida, e o fez permanecer firme durante os quatro reinados em que serviu no palácio.

Fico pensando sobre como a modernidade líquida, o jeito líquido de amar, estão presentes em meu dia-a-dia. Em como é difícil manter-me íntegra enquanto faço parte desta realidade. É difícil não ceder ao consumismo em diversos aspectos da vida - até mesmo nos relacionamentos. Recebo tantos nomes novos que é difícil lembrar daquele que é o mais importante: "amada de Deus". E aí é uma busca incessante por prazer, por aceitação, por poder...

Quero ser como Daniel. Quero saber dizer sim às oportunidades de aprender, de crescer. Mas quero saber dizer não àquilo que me separa de quem eu sou e de minha identidade primordial - filha de Aba. Quero aprender a amar de maneira sólida e comprometida com o bem do meu próximo, mesmo que isso signifique nadar contra a corrente. Quero viver a ressurreição, sentir o fascínio do inexplicável e, como criança, responder com um sorriso. Quero caminhos de vida. Ainda que esses caminhos me levem a uma cova cheia de leões, quero crer que vale a pena.
Um pouco mais de Bauman:
"Sem humildade e coragem não há amor."
"Onde há dois não há certeza."
"Formar uma família é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável. Cancelar ou adiar outras sedutoras alegrias consumistas de uma atração ainda não experimentada, desconhecida e imprevisível - em si mesmo um sacrifício assustador que se choca fortemente com os hábitos do consumidor prudente."
"As íntimas conexões do sexo com o amor, a segurança, a peranência e a imortalidade via continuação da família não eram, afinal de contas, tão inúteis e constrangedoras como se imaginava, se sentia ou se acusava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez fossem seus sustentáculos necessários."

13.3.07

Buena onda en Buenos Aires...


Linda.

Essa é a palavra que melhor exprime essa viagem.

Eu demorei pra escrever sobre ela, porque na verdade, acho que demorei pra voltar. Aliás, nem sei se já voltei por completo. Em dias bonitos, ainda me pego olhando pro céu azul e consigo sentir a atmosfera daquela cidade.

Conheci lugares bonitos, pessoas especiais. Gente de todo o mundo. Falei outras línguas, me comuniquei por gestos. Dei risada de coisas comuns. É engraçado quando você olha para um cardápio e não sabe o que tem pra comer. Quando não consegue acompanhar o ritmo local, mas "dá show" em um ritmo que é só seu, mesmo que, em casa, você apenas saiba o básico. (Sim, estou falando de tango versus samba). É intrigante conversar com gente que não sabe nada sobre seu país, sua cidade. (Para quem é paulistano, isso é especialmente intrigante: os gringos só conhecem mesmo o Brasil do Carnaval, praia e mulatas. Muitos não imaginam que aqui trabalhamos duro e não temos praia). É inspirador olhar para ruas nunca antes vistas, ler cartazes em uma língua diferente, aprender a se orientar por um mapa. É delicioso desejar aproveitar cada segundo como se fosse o único. E viver intensa e apaixonadamente cada detalhe: o metrô de madeira, o ônibus em que só se pode andar se tiver moeda, a soda que é água mineral, a carne nobre que na verdade é miúdo de boi, o melhor sorvete de dulce de leche do mundo...

A viagem foi linda também por me aproximar mais da Val e da Tais. Uma amiga de longa data, outra recém-agregada ao rol. Companheiras perfeitas para a viagem perfeita. Gente que gosta de coisas bonitas e interessantes, mas que é flexível, humana. Gente que abre mão de seus planos pelo bem do grupo. Meninas de ouro.

Foi "relindo" caminhar por Puerto Madero, por La Boca, pela Plaza de Mayo... ver a Casa Rosada, o Caminito... Voltei apaixonada por Buenos Aires! A cidade é poética, bonita e bem cuidada. Mistura harmônica da desarmonia entre o novo e o antigo. Também foi lindo conhecer um pouco da vida dos porteños. Ver bairros mais periféricos, saber que a pobreza, como lá, é "ocultada" das vistas dos estrangeiros. Mas existe.

Buenos Aires marca o início de um novo tempo pra mim. Tempo de desbravar o mundo, conhecer outros lugares, outras culturas. Voltei de lá um pouquinho mais curiosa. Com mais vontade de cair na estrada, de investir meu tempo e recursos em pessoas e lugares novos. Um desejo imenso de mergulhar na cultura alheia, ler, entender, enfim... viajar... literal e metaforicamente...


Já se passaram 20 dias desde que voltamos. E ainda é muito bom relembrar cada detalhe. O cheirinho do avião, o caminho sem fim do ônibus quando chegamos, o senhor que nos deu informação no metrô-fantasma... O clima jovem e agitado do hostel, as lindas ruas de Palermo...


É bom sonhar com o próximo destino.

26.1.07

Sobre saudade, sinceridade e amigos...



Ando com saudade da adolescência. Um tempo em que se usa as mais óbvias técnicas de sedução, e se pensa que está inaugurando a arte da conquista. Em que se dá as indiretas mais diretas, em que o rosto ruboriza fácil, em que se mete os pés pelas mãos – seja por medo, insegurança ou mesmo por não saber o que fazer – mas logo tudo se supera, se resolve.

Na verdade, acho que estou com saudade de um tempo que nunca existiu. Tempo em que se pode dizer se gosta sem medo de parecer atirado demais, ou de dizer que não gosta sem magoar outra pessoa. Mentira. Tempo de dizer que não gosta sem fechar uma porta – porque sempre dá medo fechar e depois querer abrir de novo, assim vamos cultivando portas abertas, ainda que no fundo saibamos que jamais vamos passar por elas. Estou com saudade da sinceridade, da legitimidade em sentimentos. Vontade de, em vez de ficar perguntando o que uma pessoa faz da vida, o que quer fazer naquele dia, o que está fazendo naquele momento, poder dizer logo: estou com vontade de te dar um beijo.

Eu queria um diálogo assim:

- Oi, fulano, tudo bem?
- Tudo sim, e vc?
- Tudo também...
- E aí, quais os planos pra hoje? Talvez role alguma coisa, se estiver a fim me liga que a gente tenta combinar.
- Olha, fulano, meus planos pra hoje são sair com você, falar o que eu tenho vontade e quem sabe te beijar no fim. Ou logo no começo, sei lá. Também to com vontade de passar a mão no teu cabelo, fazer um cafuné. E brincar com a sua mão enroscada na minha.
E o fulano responderia:
- Beleza, quando nos encontramos?

Poxa, será que é difícil ser simples? Ser sincero, ser verdadeiro, descomplicar as coisas? Confesso que estou cansada dessa vida de meias palavras, de tudo codificado, de querer e não poder dizer que quer pra não estragar o que se quer. Nessas horas, sinto falta de um namorado. Alguém pra quem você liga sabendo que vai te atender. Alguém pra quem se possa dizer: hoje não to a fim. Ou sim, estou muito a fim.

E não, não amo ninguém em secreto. Talvez seja bom deixar isso claro, porque tudo o que tenho dito pode parecer amor reprimido querendo sair. Não é. É só mesmo um desejo de que as coisas fossem mais leves, mais simples, mais soltas. Mas já que não são, desisto. Não vou mais lutar, não quero me enquadrar, desisto de tentar. Como li no livro da Clarice (que não me canso de ler nem citar): “antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado”. Ou como o nome de uma banda dessas de formatura que uma vez vi em algum lugar, chamada “Cansei de ser sexy”. É isso.

Ainda bem que existem os amigos. Pra esses, com o tempo e a convivência – engraçado, às vezes nem tanto tempo assim – , a gente pode falar dessas coisas. Contar os podres, as vontades, as questões de múltipla personalidade (e quem não as tem?). Ontem teve sessão-verdade com um amigo querido. Gosto de contar pra ele sobre as minhas categorizações e ouvir ele dar risada do meu jeito de separar as coisas, as pessoas. Ele diz que nunca tinha pensado nisso e logo adere à classificação também. Sem querer, ele extrai de mim verdades que não conto pra ninguém. E faz boas perguntas também. “De onde você acha que vem isso, Ju?” Putz, essa pega...

Eu também gosto de ouvir ele contar os podres dele, dizer que é cafajeste. É difícil homem que reconhece isso, ainda mais pra uma mulher. Gosto quando falamos mal de chefe juntos. E quando chegamos à conclusão de que o melhor é seguir em frente, que a vida vai melhorar. Gosto muito dele, e ontem eu disse isso. Mas acho que nem precisava. Afinal, se os amigos nos permitem dizer algumas coisas, outras a gente nem precisa falar – eles simplesmente já sabem.



Foto: amigos especiais da ABU, em montagem feita pelo amigo acima citado.


17.1.07

Volver...

Encantada com a música do filme Volver... pensando a respeito...

Volver
Música: Carlos Gardel
Letra: Alfredo Le Pera

Yo adivino el parpadeo
de las luces que a lo lejosvan marcando mi retorno...
Son las mismas que alumbraroncon sus pálidos reflejos
hondas horas de dolor...
Y aunque no quise el regreso,
siempre se vuelve al primer amor...
La vieja calle donde el eco dijo
tuya es su vida, tuyo es su querer,
bajo el burlón mirar de las estrellas
que con indiferencia hoy me ven volver...

Volver...
con la frente marchita,
las nieves del tiempo
platearon mi sien...
Sentir...
que es un soplo la vida,
que veinte años no es nada,
que febril la mirada,
errante en las sombras,
te busca y te nombra.
Vivir...
con el alma aferradaa
un dulce recuerdo
que lloro otra vez...

Tengo miedo del encuentro
con el pasado que vuelve
a enfrentarse con mi vida...
Tengo miedo de las noches
que pobladas de recuerdos
encadenan mi soñar...

Pero el viajero que huye
tarde o temprano detiene su andar...
Y aunque el olvido, que todo destruye,
haya matado mi vieja ilusión,
guardo escondida una esperanza humilde
que es toda la fortuna de mi corazón.

16.1.07

Contando os dias...


Buenos Aires...

Tenho sonhado em passear por essas ruas... com certeza essa viagem será muito especial...

15.1.07

E se eu fosse eu?





Em meu passeio solitário pela Paulista ontem, acabei indo parar na Fnac. Na seção "Literatura Brasileira"- que, aliás, me enlouquece! - me apaixonei por um livro da Clarice, chamado "Aprendendo a Viver". Era lindo - mesmo por fora, uma capa delicada com pequenos desenhos coloridos de coisas cotidianas. Fiquei apaixonada. Dei uma folheada, peguei alguns outros, estive em dúvida entre ele e um de poesia da Adélia Prado... até que alguma coisa me disse que era aquele mesmo.

Comecei a devorar o livro já no ônibus, aleatoriamente. Várias crônicas, algumas bem curtas... Gosto muito de ler a Clarice porque sinto ela toda no papel, mente e coração. E a sinto muito humana, muito próxima, mesmo sendo a Clarice Lispector que eu admiro tanto. Sinto seus conflitos muito próximos dos meus, suas dúvidas ajudando a entender as minhas (ou a pelo menos dar nomes pra elas...). Foi assim quando li "Se eu fosse eu". Ela começa dizendo que, quando quer lembrar onde deixou um papel importante, pensa: "se eu fosse eu, onde guardaria esse papel?". Mas aí se surpreende com a parte do "se eu fosse eu" e acaba esquecendo do papel. O trecho que mais me chamou a atenção foi:

"Acho que se eu fosse realmente eu, os amigos não me cumprimentariam na rua porque até minha fisionomia teria mudado. Como? Não sei. Metade das coisas que eu faria se eu fosse eu, não posso contar".

E eu me senti muito como ela. Alguém que não sabe exatamente quem é, porque, acostumada a fazer o que - dizem - é o certo, já não sabe mais o que faria se fosse atender aos apelos do meu verdadeiro eu. Alguém que tem medo de fazer o que realmente quer e, assim, assustar os amigos, escandalizar as pessoas, afastá-las e ficar sozinha.

A Clarice chegou com essa crônica bem no momento em que estava terminando de ler "O Impostor que vive em mim", do Brennan Manning. O cara faz questão de mostrar o quanto eu me apego aos padrões, ao que é certo, ao sucesso, às máscaras, para não deixar que as outras pessoas - e nem mesmo Deus - vejam a Juliana de verdade.


A questão que me confunde é: ok, eu sou pobre pecadora, humana e cheia de maldades. Tudo de ruim está em mim, naturalmente. Mas se Jesus veio pra transformar tudo isso, eu não deveria ser diferente? Brennan Manning diz que não. E luta pra me convencer de que eu sou amada, sou filha querida de Aba, ainda que faça tudo "errado"(entre aspas porque os padrões de certo e errado neste caso estão mais ligados a perfeccionismo e legalismo do que ao que realmente é certo ou errado, se é que isso existe).

E então, eu insisto em fazer tudo certo, pra merecer que os outros me amem, que a minha família me aceite, que Deus me abençoe. É isso aí. Faço grandes trocas com Deus. Não dou ofertas grandiosas, sou absolutamente contra a teologia da prosperidade e tal. Mas tenho lá meus modos de fazer escambo. Funciona assim: fazer tudo direitinho = ganhar presentes legais. Ou não. Aliás, quase sempre não. Às vezes eu faço grandes merdas e ainda assim ganho muitos presentes. Mas aí fico com medo de abusar... E aí vem a culpa... Me martirizo por um tempinho, sofro pensando que não deveria fazer aquilo, fico com vergonha de Deus e todo mundo... Mas quando percebo que mesmo assim Deus continua sendo legal comigo, abuso mais um pouquinho... e vivo assim, testando os limites da graça - como se ela tivesse limites - tentando descobrir até onde Deus vai com essa história de amor incondicional.

Ontem vi também O Auto da Compadecida, filme que adoro por ser tão brasileiro e tão verdadeiro. Amo a cena do julgamento, em que, após ser acusado e condenado pelo Diabo, o João Grilo apela pra "quem pode mais - Nosso Senhor Jesus Cristo". Mas diante de tanta coisa ruim que João fez durante a vida, parece impossível salvá-lo. Nesse momento, o Diabo diz: "eu apelo para a justiça". E João, ciente de sua condição, diz: "eu apelo para a misericórdia".


Quero aprender a ser como o João Grilo. Apelar mais para a misericórdia de Cristo, receber de sua graça independente do que eu faça. Aprender quem sou, conhecer meus mais profundos desejos, anseios, necessidades... mesmo aqueles que sejam feios. "Tenho direito de ser feia", disse a Clarice em outra crônica do mesmo livro. Quero aprender a ser feia, a ser chata, a ser cruel, a ser eu mesma. E ver a beleza de Cristo em tudo isso - me ensinando que o preço está pago, que Ele já fez o que tinha pra ser feito...

Quero aprender a fazer com serenidade à pergunta: "E se eu fosse eu?" - e não ter medo do que posso encontrar como resposta...

Em tempo: quem viu o Auto da Compadecida sabe que o João Grilo teve outra chance... e que, embora tenha melhorado um pouquinho (cumpriu com a promessa de entregar o dinheiro à Nossa Senhora), continuou usando seus truques e esperteza pra sobreviver... Acho que é isso. Estamos sempre ganhando novas chances. Damos um passinho adiante, melhoramos um pouco... Mas continuamos gente cheia de imperfeição... precisando sempre, cada dia, da misericórdia divina.