26.1.07

Sobre saudade, sinceridade e amigos...



Ando com saudade da adolescência. Um tempo em que se usa as mais óbvias técnicas de sedução, e se pensa que está inaugurando a arte da conquista. Em que se dá as indiretas mais diretas, em que o rosto ruboriza fácil, em que se mete os pés pelas mãos – seja por medo, insegurança ou mesmo por não saber o que fazer – mas logo tudo se supera, se resolve.

Na verdade, acho que estou com saudade de um tempo que nunca existiu. Tempo em que se pode dizer se gosta sem medo de parecer atirado demais, ou de dizer que não gosta sem magoar outra pessoa. Mentira. Tempo de dizer que não gosta sem fechar uma porta – porque sempre dá medo fechar e depois querer abrir de novo, assim vamos cultivando portas abertas, ainda que no fundo saibamos que jamais vamos passar por elas. Estou com saudade da sinceridade, da legitimidade em sentimentos. Vontade de, em vez de ficar perguntando o que uma pessoa faz da vida, o que quer fazer naquele dia, o que está fazendo naquele momento, poder dizer logo: estou com vontade de te dar um beijo.

Eu queria um diálogo assim:

- Oi, fulano, tudo bem?
- Tudo sim, e vc?
- Tudo também...
- E aí, quais os planos pra hoje? Talvez role alguma coisa, se estiver a fim me liga que a gente tenta combinar.
- Olha, fulano, meus planos pra hoje são sair com você, falar o que eu tenho vontade e quem sabe te beijar no fim. Ou logo no começo, sei lá. Também to com vontade de passar a mão no teu cabelo, fazer um cafuné. E brincar com a sua mão enroscada na minha.
E o fulano responderia:
- Beleza, quando nos encontramos?

Poxa, será que é difícil ser simples? Ser sincero, ser verdadeiro, descomplicar as coisas? Confesso que estou cansada dessa vida de meias palavras, de tudo codificado, de querer e não poder dizer que quer pra não estragar o que se quer. Nessas horas, sinto falta de um namorado. Alguém pra quem você liga sabendo que vai te atender. Alguém pra quem se possa dizer: hoje não to a fim. Ou sim, estou muito a fim.

E não, não amo ninguém em secreto. Talvez seja bom deixar isso claro, porque tudo o que tenho dito pode parecer amor reprimido querendo sair. Não é. É só mesmo um desejo de que as coisas fossem mais leves, mais simples, mais soltas. Mas já que não são, desisto. Não vou mais lutar, não quero me enquadrar, desisto de tentar. Como li no livro da Clarice (que não me canso de ler nem citar): “antes o sofrimento legítimo que o prazer forçado”. Ou como o nome de uma banda dessas de formatura que uma vez vi em algum lugar, chamada “Cansei de ser sexy”. É isso.

Ainda bem que existem os amigos. Pra esses, com o tempo e a convivência – engraçado, às vezes nem tanto tempo assim – , a gente pode falar dessas coisas. Contar os podres, as vontades, as questões de múltipla personalidade (e quem não as tem?). Ontem teve sessão-verdade com um amigo querido. Gosto de contar pra ele sobre as minhas categorizações e ouvir ele dar risada do meu jeito de separar as coisas, as pessoas. Ele diz que nunca tinha pensado nisso e logo adere à classificação também. Sem querer, ele extrai de mim verdades que não conto pra ninguém. E faz boas perguntas também. “De onde você acha que vem isso, Ju?” Putz, essa pega...

Eu também gosto de ouvir ele contar os podres dele, dizer que é cafajeste. É difícil homem que reconhece isso, ainda mais pra uma mulher. Gosto quando falamos mal de chefe juntos. E quando chegamos à conclusão de que o melhor é seguir em frente, que a vida vai melhorar. Gosto muito dele, e ontem eu disse isso. Mas acho que nem precisava. Afinal, se os amigos nos permitem dizer algumas coisas, outras a gente nem precisa falar – eles simplesmente já sabem.



Foto: amigos especiais da ABU, em montagem feita pelo amigo acima citado.


1 comentário:

Anónimo disse...

Sabe que eu acho o diálogo que vc 'inventou' muito massa? hhahuhauhaa.