
Meses depois, aqui estou novamente...
Durante esse tempo, vivi muitas coisas, refleti bastante e, aos poucos, sinto que estou encontrando meu caminho de volta para casa. Quem conhece a história do filho pródigo deve entender bem o significado disso.
Tenho pensado muito no que Zygmunt Bauman esreveu em seu "Amor Líquido". É tanta verdade que às vezes chega a ser cruel. Verdade sobre meus sentimentos, minha realidade, meu jeito de enxergar a vida. E aí me percebo totalmente envolvida por valores que não costumavam ser os meus. Me percebo vendo o mundo a partir de uma ótica nova, muito mais conformista, muito mais "líquida". Preceitos humanos, coisas que vêm de fora e evocam o que está no coração humano - caído, pecaminoso.
"(...) E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a experiência amorosa à semelhançca de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esfoço sem suor e resultados sem esforço". (cap. 1 - Apaixonar-se e desapaixonar-se)
Hoje na IMEL refletimos sobre a vida de Daniel. Jovem inteligente, culto, selecionado entre muitos para estudar na Babilônia, a melhor "universidade" da época. Daniel disse sim a essa possibilidade, aproveitou-a dando o seu melhor e se tornou "dez vezes mais sábio que os demais". Ainda assim, ele disse não aos valores dali. Apesar de terem mudado seu nome, Daniel sabia quem era e jamais se esqueceu daquilo que regia sua vida: o Deus de Israel. Estando longe de casa, ele mantinha os velhos hábitos aprendidos com seus pais para se lembrar de sua identidade. Daniel se manteve íntegro - e isso lhe rendeu perseguições e até mesmo uma cova cheia de leões. Uma amostra de como "sua presença faz toda diferença": Daniel sabia quem estava com ele e se lembrava de suas promessas. Isso o sustentou durante toda a sua vida, e o fez permanecer firme durante os quatro reinados em que serviu no palácio.
Fico pensando sobre como a modernidade líquida, o jeito líquido de amar, estão presentes em meu dia-a-dia. Em como é difícil manter-me íntegra enquanto faço parte desta realidade. É difícil não ceder ao consumismo em diversos aspectos da vida - até mesmo nos relacionamentos. Recebo tantos nomes novos que é difícil lembrar daquele que é o mais importante: "amada de Deus". E aí é uma busca incessante por prazer, por aceitação, por poder...
Quero ser como Daniel. Quero saber dizer sim às oportunidades de aprender, de crescer. Mas quero saber dizer não àquilo que me separa de quem eu sou e de minha identidade primordial - filha de Aba. Quero aprender a amar de maneira sólida e comprometida com o bem do meu próximo, mesmo que isso signifique nadar contra a corrente. Quero viver a ressurreição, sentir o fascínio do inexplicável e, como criança, responder com um sorriso. Quero caminhos de vida. Ainda que esses caminhos me levem a uma cova cheia de leões, quero crer que vale a pena.
Um pouco mais de Bauman:
"Sem humildade e coragem não há amor."
"Onde há dois não há certeza."
"Formar uma família é como pular de cabeça em águas inexploradas e de profundidade insondável. Cancelar ou adiar outras sedutoras alegrias consumistas de uma atração ainda não experimentada, desconhecida e imprevisível - em si mesmo um sacrifício assustador que se choca fortemente com os hábitos do consumidor prudente."
"As íntimas conexões do sexo com o amor, a segurança, a peranência e a imortalidade via continuação da família não eram, afinal de contas, tão inúteis e constrangedoras como se imaginava, se sentia ou se acusava que fossem. Os antigos companheiros do sexo, supostamente antiquados, talvez fossem seus sustentáculos necessários."
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