10.7.14

Cabelo cresce.

Sempre tive medo de cortar o cabelo. Acho que por causa do trauma do cabelo volumoso da infância, quando sucessivos cortes inapropriados para minha quantidade e textura de cabelo faziam eu me sentir constantemente no clipe de “Gosto muito de te ver, leãozinho...”

Com o tempo, veio o entendimento do que me caía bem, o aprendizado de como usar o secador, o dinheiro para comprar os produtos mais adequados. Ainda assim, sempre fui prudente. Nada de corte acima do ombro, nada de muitas camadas. Franja, então, nem pensar. Nunca mais quero parecer o Xororó nessa vida! (Olha mais um trauma de infância aí).

Cada vez que eu me sentava na cadeira do cabeleireiro, podia sentir as borboletas subindo e descendo no meu estômago. Será que ele entendeu o que eu pedi? Será que vai cortar demais? A agonia de ver a tesoura subindo e descendo sem que eu consiga enxergar exatamente para onde ela está indo é um dos piores e mais presentes sentimentos na minha vida enquanto serumano-do-sexo-feminino.

Mas esse ano foi diferente. Depois de um ano de casados (com mudanças para dar e vender), nos mudamos para um país diferente. Recomeço. Viver um mês em um studio mobiliado, com apenas nossas roupas como pertences pessoais (e nem vou entrar no mérito dos -15º de temperatura). Depois, morar dois meses em nosso apartamento definitivo com apenas um sofá, uma cama, uma mesa com duas cadeiras e a TV sobre um pequeno rack emprestado. Desapego. Não saber fazer compras no supermercado. Não entender como funciona a lógica de um país. Aprender do zero. E de repente, trinta. O ano de tantas mudanças – coincidência ou não – é o ano em que completo 30 anos. E o saldo é mais do que positivo. Hoje, aos 30, me sinto muito melhor que aos 20 (apesar dos quilinhos a mais). Sou mais segura, tranquila. Já fiz as grandes escolhas que aos 20 me tiravam o sono. Estou casada, tenho um emprego bacana, rompi com coisas que não mais me representavam e me aproximei de outras que fazem sentido.

Diante de tudo isso, como passar o aniversário de 30 com o mesmo cabelo? Decido cortar. Busco referências. Jogo no google coisas como “tendências cabelo inverno” ou “long bob haircut celebrities”. É isso. Encontrei. Quero esse corte, com essa cor. Um pouquinho de luzes, só pra dar uma iluminada. Imprimo as fotos, marco o horário com a cabeleireira recomendada. Vou chegar liennnda aos big three-oh, como dizem por aqui. O salão parece bacana, as profissionais são amigáveis. Conversa pra cá, conversa pra lá, as borboletas que não param. Primeiro as luzes, depois o corte. Lavar, secar. E ficou...

PÉSSIMO! O corte, curto demais. As luzes, um verdadeiro pesadelo. NADA a ver com as fotos que eu cuidadosamente selecionei, imprimi e mostrei. Desespero. Quero conversar, explicar, mas a menina dos cabelos armados chora. Explicar o que deu errado, e ainda em inglês? No way. Só consigo dizer: isso não era o que eu tinha em mente, ficou muito claro, não gostei. Tira, por favor. Me levam pra tonalizar de novo, mas a cabeleireira (cara) que eu escolhi não tem mais tempo para gastar comigo (time’s money, babe). Estou sozinha, cabelo molhado e secador na mão, num canto do salão. Os olhos vermelhos, aquela lágrima que teima em não querer voltar pra dentro do olho.
 
Chego em casa. Choro, choro, choro. Marido é pra essas coisas, não é? “Está horrível, foi horrível”, é o que consigo dizer. E ele – santa paciência – me diz: “Calma, você só está assustada com a mudança”. Eu? Assustada com a mudança? A pessoa que largou família, amigos, um apartamento novinho, uma equipe superlegal para começar uma vida nova em outro país? Olha com mais carinho, Juliana. É, o corte não está tão ruim. A cor... Realmente não gosto. Mas essas mechinhas aqui perto do rosto, até que não ficaram tão feias.


Resumo da ópera. Celebrei a chegada dos 30 com o cabelo mais curto evah. Com as luzes que eu não gostei. E com amiga querida visitando do Brasil, marido amado, novos amigos do novo país. Dias depois, a mulher de 30 volta ao salão. Explica o que houve, do que não gostou e o que esperava. O cabeleireiro entende, pede desculpas, explica o que fará para consertar. As borboletas sumiram! Gente, ele está mexendo na cor da base do meu cabelo – e eu estou calma! Termina. Longe de ser o que eu tinha sonhado. Mas estou menos infeliz. Com jeitinho e um bom secador, fica até legal. E quer saber? Num ano marcado por tanta mudança, estou mais é feliz de aprender a enfrentar o novo, a experimentar. E no fim das contas, cabelo cresce. E a gente também.

9.7.14

Sete vezes mais triste

E de todas as experiências que temos vivido desde que nos mudamos para os Estados Unidos – e sobre as quais ainda não consegui escrever – , senti vontade de falar sobre perder a Copa do Mundo.

Perdemos para a Alemanha. Perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos. Sete vezes, pra ser ainda mais doloroso. Não tem como não se entristecer. A gente fala que é só um jogo, que futebol é assim mesmo, que já sabíamos que a Alemanha era superior. Mas esse gosto amargo, essa sensação de luto nos atinge em cheio e não dá pra fingir que não aconteceu. Inegável que, até quem falou e torceu contra a Copa desde o início, nas mais tresloucadas análises misturando política e futebol, no fundo queria que o Brasil ganhasse – ou que pelo menos não sofresse tamanha vergonha em pleno Mineirão lotado.

Estar distante do Brasil em um momento como esse potencializa todos os sentimentos. A gente fica mais sensível, mais nostálgico. A gente não quer ver os gringos falando mal do nosso País (e nem vou falar dos próprios brasileiros que ficam “pichando” o Brasil seja Copa ou não, porque esses... ah, eles me tiram do sério). A gente se sente vulnerável. Assistir à partida em um bar vazio (afinal, o que é a Copa do Mundo num país onde futebol se joga com a mão?), em que as únicas pessoas presentes estão torcendo pela Alemanha, e ver o Brasil perder de 5 a 0 em menos de 30 minutos, expõe toda a nossa fragilidade. Digam o que for – que é ópio, que é instrumento de manipulação, etc etc etc – mas, como povo, o futebol é parte da nossa identidade. Somos ruins em muita coisa, estamos melhorando aos poucos em várias outras. Mas o futebol, esse sempre foi o nosso ponto forte. Aqui a gente se garante. E ver nossa seleção perdida em campo, sem conseguir se recuperar, um-gol-após-o-outro (e não foram poucos), só nos fazia sentir que as feridas estavam todas expostas, que não somos tão bons assim, e que nem entre as quatro linhas do gramado nos garantimos mais. 

Olhando ao redor, ninguém parece se importar. Alguns poucos querem tripudiar. “Já vão embora?”, pergunta um torcedor com a camisa alemã (mas nitidamente não-alemão, por feições e sotaque), na saída do bar. Sim, já vamos. Para nós, o jogo já acabou. Assim como a nossa auto-estima. E só se foram 45 minutos.

A gente começa a buscar o familiar. Fala com os amigos pelo Whatsapp, atualiza o Facebook incessantemente para ver o que nossos compatriotas estão sentindo e dizendo. Busca um lugar de identificação. Um consolo, talvez? Segundo tempo. Melhor lavar roupas, adiantar as tarefas de casa. Mas o coração não sossega. 6. 7. 7 a 0, um placar nunca antes visto. Minutos antes do fim, um gol nosso. Mas que não foi de honra. Nem de longe diminuiu nossa tristeza, nossa vergonha. A gente se pergunta: melhor estar aqui ou lá? Aqui basta mudar de canal e é como se nada tivesse acontecido. Lá, sabemos, não se deve falar em outro assunto. Adianta buscar respostas?

Também perdemos a experiência de estar no nosso País quando fomos a sede da maior competição de futebol do mundo. Acompanhar à distância, a princípio, foi um alívio. Quando ninguém ainda sabia como seria a Copa do Mundo no Brasil, e os pessimistas previam catástrofes, antes de se desenhar a “Copa das Copas”, o medo do caos que poderia se instaurar nas grandes cidades me fazia sentir feliz por estar longe. “Pelo menos estamos protegidos”, eu pensava. Mas conforme a Copa foi avançando, os jogos acontecendo com sucesso e o clima de festa multi-cultural tomando conta do País, o sentimento foi se transformando em saudades de casa e uma certa inveja. Uma grande vontade de estar lá, de ver os gringos tomando conta das ruas, junto com a nossa gente, as torcidas alegres se confraternizando.

Vontade de presenciar tudo dando certo, e de poder me orgulhar de um País que, apesar de todos os pesares (desnecessário enumerá-los), não perde a sua essência: hospitaleiro, alegre, festivo. Aberto e disponível. Um País que faz a coisa acontecer – ainda que de última hora ou no “jeitinho”. E estando fora a gente aprende a valorizar cada uma dessas características. Sem jamais perder o senso crítico sobre o quanto elas impactam nossa produtividade e crescimento, é somente morando num lugar onde aparentemente tudo dá certo que a gente percebe o quanto nossa alegria, hospitalidade e disponibilidade fazem falta. Nossa flexibilidade – bênção e maldição.

Vamos nos recuperar da derrota histórica? Sim. Nosso mesmo povo alegre e festivo, ainda durante o jogo já mostrava sua criatividade em piadas que ajudam a digerir o ocorrido e superar a dor. Vamos continuar tendo nossos problemas, dentro e fora de campo? Sim. As mudanças estão ocorrendo, mas são lentas e não há dúvida de que ainda há muito a ser transformado.

Não quero falar de Neymar, de Thiago Silva, de Fred ou de Felipão. Não quero discutir política, nem teorias da conspiração. Quero pensar no que essa Copa acentuou em mim. A saudade. Saudade desse País lindo, cheio de mazelas e desigualdades, mas que é o nosso lar. E família é assim, a gente briga, fala mal, aponta todos os defeitos. Mas ama tão profundamente que quer defender a todo custo. E quer ver feliz. Sinto sua falta, Brasil. E os 7 a 1 só me fizeram ficar sete vezes mais triste por estar distante de você.