Com o
tempo, veio o entendimento do que me caía bem, o aprendizado de como usar o
secador, o dinheiro para comprar os produtos mais adequados. Ainda assim,
sempre fui prudente. Nada de corte acima do ombro, nada de muitas camadas. Franja,
então, nem pensar. Nunca mais quero parecer o Xororó nessa vida! (Olha mais um
trauma de infância aí).
Cada
vez que eu me sentava na cadeira do cabeleireiro, podia sentir as borboletas
subindo e descendo no meu estômago. Será que ele entendeu o que eu pedi? Será
que vai cortar demais? A agonia de ver a tesoura subindo e descendo sem que eu
consiga enxergar exatamente para onde ela está indo é um dos piores e mais
presentes sentimentos na minha vida enquanto serumano-do-sexo-feminino.
Mas
esse ano foi diferente. Depois de um ano de casados (com mudanças
para dar e vender), nos mudamos para um país diferente. Recomeço. Viver um mês
em um studio mobiliado, com apenas nossas roupas como pertences pessoais (e nem
vou entrar no mérito dos -15º de temperatura). Depois, morar dois meses em
nosso apartamento definitivo com apenas um sofá, uma cama, uma mesa com duas
cadeiras e a TV sobre um pequeno rack emprestado. Desapego. Não saber fazer
compras no supermercado. Não entender como funciona a lógica de um país. Aprender
do zero. E de
repente, trinta. O ano de tantas mudanças – coincidência ou não – é o ano em
que completo 30 anos. E o saldo é mais do que positivo. Hoje, aos 30, me sinto
muito melhor que aos 20 (apesar dos quilinhos a mais). Sou mais segura, tranquila.
Já fiz as grandes escolhas que aos 20 me tiravam o sono. Estou casada, tenho um
emprego bacana, rompi com coisas que não mais me representavam e me aproximei
de outras que fazem sentido.
Diante
de tudo isso, como passar o aniversário de 30 com o mesmo cabelo? Decido cortar.
Busco referências. Jogo no google coisas como “tendências cabelo inverno” ou “long
bob haircut celebrities”. É isso. Encontrei. Quero esse corte, com essa cor. Um
pouquinho de luzes, só pra dar uma iluminada. Imprimo as fotos, marco o horário com a
cabeleireira recomendada. Vou chegar liennnda
aos big three-oh, como dizem por
aqui. O salão parece bacana, as profissionais são amigáveis. Conversa pra cá, conversa pra lá, as borboletas que não param. Primeiro as
luzes, depois o corte. Lavar, secar. E ficou...
PÉSSIMO!
O corte, curto demais. As luzes, um verdadeiro pesadelo. NADA a ver com as
fotos que eu cuidadosamente selecionei, imprimi e mostrei. Desespero. Quero conversar,
explicar, mas a menina dos cabelos armados chora. Explicar o que deu errado, e
ainda em inglês? No way. Só consigo
dizer: isso não era o que eu tinha em mente, ficou muito claro, não gostei.
Tira, por favor. Me levam pra tonalizar de novo, mas a cabeleireira (cara) que
eu escolhi não tem mais tempo para gastar comigo (time’s money, babe). Estou sozinha, cabelo molhado e secador
na mão, num canto do salão. Os olhos vermelhos, aquela lágrima que teima em não querer voltar pra dentro do olho.
Chego
em casa. Choro, choro, choro. Marido é pra essas coisas, não é? “Está horrível,
foi horrível”, é o que consigo dizer. E ele – santa paciência – me diz: “Calma,
você só está assustada com a mudança”. Eu? Assustada com a mudança? A pessoa que largou família, amigos, um apartamento novinho, uma equipe superlegal para
começar uma vida nova em outro país? Olha com mais carinho, Juliana. É, o corte
não está tão ruim. A cor... Realmente não gosto. Mas essas mechinhas aqui perto do rosto,
até que não ficaram tão feias.
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