E de todas as experiências
que temos vivido desde que nos mudamos para os Estados Unidos – e sobre as
quais ainda não consegui escrever – , senti vontade de falar sobre perder
a Copa do Mundo.
Perdemos para a
Alemanha. Perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos, perdemos.
Sete vezes, pra ser ainda mais doloroso. Não tem como não se entristecer. A
gente fala que é só um jogo, que futebol é assim mesmo, que já sabíamos que a
Alemanha era superior. Mas esse gosto amargo, essa sensação de luto nos atinge
em cheio e não dá pra fingir que não aconteceu. Inegável que, até quem falou e
torceu contra a Copa desde o início, nas mais tresloucadas análises misturando
política e futebol, no fundo queria que o Brasil ganhasse – ou que pelo menos não
sofresse tamanha vergonha em pleno Mineirão lotado.
Estar distante do
Brasil em um momento como esse potencializa todos os sentimentos. A gente fica
mais sensível, mais nostálgico. A gente não quer ver os gringos falando mal do
nosso País (e nem vou falar dos próprios brasileiros que ficam “pichando” o Brasil
seja Copa ou não, porque esses... ah, eles me tiram do sério). A gente se sente
vulnerável. Assistir à partida em um bar vazio (afinal, o que é a Copa do Mundo
num país onde futebol se joga com a mão?), em que as únicas pessoas presentes
estão torcendo pela Alemanha, e ver o Brasil perder de 5 a 0 em menos de 30
minutos, expõe toda a nossa fragilidade. Digam o que for – que é ópio, que é
instrumento de manipulação, etc etc etc – mas, como povo, o futebol é parte da
nossa identidade. Somos ruins em muita coisa, estamos melhorando aos poucos em
várias outras. Mas o futebol, esse sempre foi o nosso ponto forte. Aqui a gente
se garante. E ver nossa seleção perdida em campo, sem conseguir se recuperar, um-gol-após-o-outro
(e não foram poucos), só nos fazia sentir que as feridas estavam todas
expostas, que não somos tão bons assim, e que nem entre as quatro linhas do
gramado nos garantimos mais.
Olhando ao redor,
ninguém parece se importar. Alguns poucos querem tripudiar. “Já vão embora?”, pergunta
um torcedor com a camisa alemã (mas nitidamente não-alemão, por feições e
sotaque), na saída do bar. Sim, já vamos. Para nós, o jogo já acabou. Assim
como a nossa auto-estima. E só se foram 45 minutos.
A gente começa a
buscar o familiar. Fala com os amigos pelo Whatsapp, atualiza o Facebook incessantemente
para ver o que nossos compatriotas estão sentindo e dizendo. Busca um lugar de
identificação. Um consolo, talvez? Segundo tempo. Melhor lavar roupas, adiantar
as tarefas de casa. Mas o coração não sossega. 6. 7. 7 a 0, um placar nunca
antes visto. Minutos antes do fim, um gol nosso. Mas que não foi de honra. Nem
de longe diminuiu nossa tristeza, nossa vergonha. A gente se pergunta: melhor
estar aqui ou lá? Aqui basta mudar de canal e é como se nada tivesse
acontecido. Lá, sabemos, não se deve falar em outro assunto. Adianta buscar
respostas?
Também perdemos a
experiência de estar no nosso País quando fomos a sede da maior competição de
futebol do mundo. Acompanhar à distância, a princípio, foi um alívio. Quando
ninguém ainda sabia como seria a Copa do Mundo no Brasil, e os pessimistas
previam catástrofes, antes de se desenhar a “Copa das Copas”, o medo do caos
que poderia se instaurar nas grandes cidades me fazia sentir feliz por estar
longe. “Pelo menos estamos protegidos”, eu pensava. Mas conforme a Copa foi
avançando, os jogos acontecendo com sucesso e o clima de festa multi-cultural
tomando conta do País, o sentimento foi se transformando em saudades de casa e
uma certa inveja. Uma grande vontade de estar lá, de ver os gringos tomando
conta das ruas, junto com a nossa gente, as torcidas alegres se confraternizando.
Vontade de presenciar
tudo dando certo, e de poder me orgulhar de um País que, apesar de todos os
pesares (desnecessário enumerá-los), não perde a sua essência: hospitaleiro,
alegre, festivo. Aberto e disponível. Um País que faz a coisa acontecer – ainda
que de última hora ou no “jeitinho”. E estando fora a gente aprende a valorizar
cada uma dessas características. Sem jamais perder o senso crítico sobre o
quanto elas impactam nossa produtividade e crescimento, é somente morando num
lugar onde aparentemente tudo dá certo que a gente percebe o quanto nossa
alegria, hospitalidade e disponibilidade fazem falta. Nossa flexibilidade – bênção
e maldição.
Vamos nos recuperar da
derrota histórica? Sim. Nosso mesmo povo alegre e festivo, ainda durante o jogo
já mostrava sua criatividade em piadas que ajudam a digerir o ocorrido e
superar a dor. Vamos continuar tendo nossos problemas, dentro e fora de campo?
Sim. As mudanças estão ocorrendo, mas são lentas e não há dúvida de que ainda há
muito a ser transformado.
Não quero falar de
Neymar, de Thiago Silva, de Fred ou de Felipão. Não quero discutir política, nem teorias da conspiração. Quero pensar no que essa Copa
acentuou em mim. A saudade. Saudade desse País lindo, cheio de mazelas e
desigualdades, mas que é o nosso lar. E família é assim, a gente briga, fala
mal, aponta todos os defeitos. Mas ama tão profundamente que quer defender a
todo custo. E quer ver feliz. Sinto sua falta, Brasil. E os 7 a 1 só me fizeram ficar sete vezes mais triste por estar distante de você.
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